O conflito femoro-acetabular

O conflito femoro-acetabular

O conflito femoro-acetabular foi recentemente identificado e corresponde a uma condição em que existe um conflito mecânico entre o fémur e o acetábulo (cavidade do osso ilíaco onde se encaixa a cabeça do fémur).

 

Nesta condição, existe uma anomalia na forma dos ossos na região da anca, o que não permite um encaixe adequado, originando um atrito excessivo entre eles, que conduz ao seu desgaste.

 

No conflito femoro-acetabular desenvolvem-se esporões ósseos na cabeça do fémur e/ou no acetábulo que obrigam os ossos a chocar uns contra os outros em vez de deslizarem suavemente. Esse atrito desgasta a cartilagem articular causando um quadro de osteoartrite.

 

É a doença da anca mais frequente do adulto jovem e afecta sobretudo desportistas, em especial bailarinos, praticantes de artes marciais ou yoga, hóquei em patins e futebolistas. De facto, nestas actividades desportivas, ocorrem movimentos repetidos da anca de grande amplitude, forçando um contacto anómalo entre as diversas estruturas da articulação da anca.

 

Factores de risco do conflito femoro-acetabular

Como se referiu, este conflito ocorrer porque os ossos da região da anca não se formaram convenientemente durante a fase de crescimento. Quando isso ocorre, pouco ou nada pode ser feito para prevenir o conflito femoro-acetabular.

 

Uma vez que as pessoas com actividade física intensa exercitam a anca de um modo mais vigoroso, nesses casos os sintomas dolorosos podem ocorrem mais cedo do que nas pessoas menos activas.

 

Para lá das actividades desportivas existem outros factores de risco a considerar, como os traumatismos, o uso de corticosteróides ou cirurgias prévias.

 

Contudo, é importante reter que o exercício não é a causa do conflito femoro-acetabular.

 

Sintomas do conflito femoro-acetabular

Desconhece-se o número de pessoas afectadas pelo conflito femoro-acetabular, embora se estime que esta doença afecte cerca de 25% das pessoas.

 

Algumas pessoas podem ter uma vida longa e activa com este problema e nunca se queixarem.
Quando os sintomas surgem já ocorreu lesão da cartilagem e é provável que a doença vá progredir.

 

A maior parte dos doentes são jovens e activos e o conflito manifesta-se por dor na região inguinal ou, por vezes, na face externa da anca. Ocorre também rigidez e alguns pacientes coxeiam.

 

O início das queixas pode ser gradual ou estar relacionado com um traumatismo, que até pode ser insignificante.

 

A dor acentua-se durante a actividade desportiva e com o sentar prolongado. Em alguns casos a dor pode ser sentida no joelho, o que pode criar dificuldades no diagnóstico.

 

Nas mulheres com ancas profundas ou salientes, pode ocorrer dor inguinal durante a actividade sexual.

 

Existem outras doenças que originam sintomas semelhantes aos do conflito femoro-acetabular, como as alterações a nível da coluna lombar ou sacro-ilíaca, a sinovite da anca, a necrose avascular da cabeça do fémur, a displasia da anca, algumas tendinites e fragilidades da parede abdominal (com ou sem hérnia).

 

Existem alguns casos em que existe conflito femoro-acetabular sem quaisquer sintomas, pelo que o diagnóstico correcto é essencial para o sucesso terapêutico.

 

Por vezes, é durante uma actividade desportiva em que ocorre uma flexão máxima da anca que esta doença, até então latente, se torna evidente.

 

Diagnóstico do conflito femoro-acetabular

No exame físico verifica-se limitação da mobilidade da anca, nomeadamente da rotação interna. A dor inguinal pode ser despertada ou agravada pela rotação interna, flexão e adução do fémur.

 

De facto, existem testes específicos e manobras que o médico irá executar para fazer um diagnóstico correcto.
Os exames radiográficos, a tomografia computorizada e a ressonância magnética são relevantes para uma correcta caracterização desta condição clínica.

 

Tratamento do conflito femoro-acetabular

Quando os sintomas surgem pela primeira vez, é importante identificar as actividades que causaram a dor. Por vezes, interrompendo essas actividades, deixando as pernas descansar e utilizando anti-inflamatórios não esteróides pode ser suficiente para controlar a situação.

 

Se os sintomas persistirem, é importante procurar ajuda médica. Quanto mais tempo decorrer maior o dano causado pelo conflito à região da anca.

 

Se o paciente for portador de factores de conflito, mas não tiver queixas, nada deverá ser feito. Se existirem queixas relacionadas com a actividade desportiva que o paciente deseja manter, a solução será cirúrgica.

A cirurgia passa pela reconstituição da anatomia, corrigindo-se os factores de conflito e as lesões associadas. Esta correcção deve ser feita sem demora em indivíduos com queixas antes que se estabeleçam lesões irreversíveis nas cartilagens.

 

A fisioterapia, numa tentativa de ganho de mobilidade, agrava o problema e está, por isso, contra-indicada. Contudo, alguns exercícios podem aumentar a amplitude de movimentos da anca e reforçar os músculos dessa articulação, assim aliviando o stress sobre a cartilagem lesada.

 

Existem três técnicas para a correcção cirúrgica do conflito:

  • A artroscopia é a técnica menos invasiva, mas exige muita experiência.
  • A luxação cirúrgica, a técnica original de correcção do conflito, é a mais agressiva, mas é a única capaz de corrigir adequadamente alguns tipos de conflito.
  • A técnica mini-invasiva anterior, associada a intensificador de imagem e artroscopia, é pouco invasiva, permite uma reabilitação muito semelhante à da artroscopia e corrige a maioria dos conflitos.

 

Prevenção do conflito femoro-acetabular

Embora se estime que o conflito femoro-acetabular possa ocorrer em 25% da população, nem todos os casos irão evoluir para lesão da cartilagem, com dor e osteoartrite. Tudo dependerá da sobrecarga exercida sobre as diferentes estruturas na região da anca.

 

No caso da prática dos desportos já referidos como potencialmente associados à evolução desta doença, pelos movimentos de flexão e de torção a que obrigam, é importante recorrer ao médico quanto antes. Uma vez que cada pessoa tem uma rotação natural diferente, é importante praticar o desporto utilizando essa rotação natural.

 

Por exemplo, no caso da corrida, algumas pessoas correm com os pés a apontar para a frente e outras colocam os pés ligeiramente para dentro. É importante que se mantenha ao longo da corrida É importante que se mantenha ao longo da corrida a postura mais natural.

 

Fontes

  • American Academy of Orthopaedic Surgeons, Setembro 2010
  • OrthopaedicsOne, Julho 2011
  • Pedro Marques e col. Conflito femoro-acetabular, Rev. Med. Desp. Informa, 2012, 3 (2): 11-13
  • Orthoanswer.org, 2012
  • M. N. Aytekin e col., Acceleration of coxarthrosis by an exostosis causing femoroacetabular impingement Health, 2 (2010): 318-320 

 

Conteúdo elaborado com o apoio de InfoCiência