Tendinites e tendinoses

Tendinites e tendinoses

Os tendões são estruturas de tecido conjuntivo que unem um músculo a um osso, transmitindo a força gerada pelo músculo à estrutura óssea.

 

No desporto, os tendões podem sofrer diversos tipos de lesões, como as roturas traumáticas, traumatismos indirectos relacionados com a vascularização, doença inflamatória associada e idade ou lesões microtraumáticas de sobrecarga.

 

De facto, as tendinopatias são muito comuns e são das lesões mais relatadas tanto em ambiente de trabalho como no desporto.

 

Nos últimos 20 anos, a actividade desportiva tem aumentado nas sociedades modernas e as exigências no desporto profissional são crescentes, com treinos mais intensos e frequentes e, portanto, com maior risco de lesões por excesso de uso.

 

De igual modo, nos desportos amadores, existem muito mais participantes, que tendem a começar a treinar mais novos, e mais mulheres. Em muitos casos, o equipamento não é o mais adequado e não existe um acompanhamento profissional, daí resultando um risco mais elevado de desenvolvimento de uma tendinopatia.

 

Cada desporto e cada actividade tenderão a afectar uns tendões mais do que outros.

 

Há poucos anos, o termo “tendinite” era amplamente utilizado para descrever a dor localizada num tendão.

 

De facto, a tendinopatia traduz-se pela presença de dor, sensibilidade ao toque, inchaço e limitação dos movimentos na região afectada.

 

O termo “tendinose” tem sido utilizado para descrever uma alteração denegerativa de um tendão sem sinais inflamatórios.

 

A distinção entre tendinite e tendinose é difícil, porque os sintomas são muito semelhantes, mas é importante de modo a que o tratamento possa ser o mais apropriado.

 

Embora se associe a tendinite a um processo doloroso com sensação de ardor na área afectada, perda de força e flexibilidade, esses sintomas são muitas vezes causadas por uma tendinose.

 

Uma tendinite é a inflamação de um tendão e resulta da ocorrência de micro-roturas sempre que o músculo e tendão respectivo são submetidos a cargas muito intensas e aplicadas de um modo súbito.

 

Uma tendinose é um processo denegerativo do colagéneo de um tendão como resposta a um excesso de uso crónico. Quando esse excesso de uso é mantido sem que o tendão tenha tempo para repousar e cicatrizar, ocorre tendinose. Mesmo movimentos de pequena amplitude, como clicar o rato do computador, podem causar tendinose, desde que executados de um modo repetido.

 

Muitas vezes, uma lesão de um tendão apresenta na fase inicial um componente de inflamação ao qual se segue o processo de degeneração. Como tal, as duas entidades podem, em alguns casos, estar interligadas.

 

A tendinose pode resultar de longas horas de actividades, como o desporto, uso de computadores ou instrumentos musicais ou outras actividades manuais.

 

Existem diversos factores de risco para a ocorrência de lesões dos tendões, como as deficiências de alinhamento, as diferenças de comprimentos dos membros, os desequilíbrios musculares, a hipermobilidade ou a rigidez muscular, os erros no treino, tanto na intensidade como na técnica, a fadiga, o piso e o tipo de calçado e de equipamento,

 

O uso de antibióticos da família das quinolonas aumenta o risco de lesões dos tendões.

 

A confusão entre as duas entidades é comum e muitas lesões descritas como tendinites são, na realidade, tendinoses. Por exemplo, “o cotovelo de tenista”, tradicionalmente descrito como uma tendinite, apresenta características que permitem classificá-lo como uma tendinose.

 

A distinção entre os dois quadros é possível mediante recurso à ecografia ou à ressonância magnética, que permitem demonstrar a solução de continuidade no colagéneo dos tendões, no caso das tendinoses. Contudo, de um modo geral, estas lesões são diagnosticadas com base nos elementos de natureza clínica.

 

O quadro seguinte ilustra as principais diferenças entre as duas entidades.
 

  Tendinose Tendinite
Tempo de recuperação,
fase precoce 
6-10 semanas Dias a 2 semanas
Tempo de recuperação,
fase avançada 
3-6 meses 4-6 semanas
Tratamento Estimular a sintese de colagéneo e a força muscular Anti-inflamatórios
Prevalência  Comum Rara

Como se referiu, a principal razão para distinguir as duas entidades é a definição da estratégia terapêutica.

 

Enquanto para a tendinite o tratamento visa reduzir a inflamação, esta não está presente na tendinose. Aqui, os tratamentos que visam controlar a inflamação estão contra-indicados, por retardarem a reparação do colagéneo.

 

O tempo de recuperação para a tendinite é de alguns dias a 6 semanas, dependendo se o tratamento é iniciado numa fase precoce ou avançada.

 

Para a tendinose, o tratamento iniciado numa fase inicial permite uma recuperação em 6 a 10 semanas. Na fase crónica, o tratamento pode durar 3 a 9 meses.

 

Alguns estudos sugerem que os tendões demoram cerca de 100 dias para produzirem novo colagéneo e, por esse facto, tratamento mais curtos não serão eficazes.

 

O tratamento das tendinoses inclui o repouso, um ajustamento na postura no local de trabalho e no desporto, uso de suporte apropriado para o tendão afectado, manutenção da execução de movimentos com o músculo envolvido associados a alongamentos para impedir a retracção muscular e estimular a cicatrização, uso de gelo durante períodos de 15-20 minutos várias vezes por dia com intervalos de, pelo menos, 45 minutos, exercícios de alongamentos realizados lentamente, estimulando a produção de colagéneo e sessões de massagens para estimular a circulação e a actividade celular.

 

Uma correcta nutrição, incluindo vitamina C, manganésio e zinco, é importante para a produção de colagéneo. A vitamina B6 e a vitamina E também contribuem para a saúde dos tendões.

 

Os medicamentos anti-inflamatórios e as injecções de corticóides podem acelerar o processo degenerativo e tornar o tendão mais susceptível a novas lesões, com risco mais elevado de rotura e, como tal, não devem ser utilizados no tratamento das tendinoses.

 

A cirurgia deve ser utilizada em último recurso, para a remoção de tecido afectado no caso das tendinoses. Contudo, ela não estimula a síntese de colagéneo e a sua taxa de sucesso varia entre 75% e 85%.

 

Embora seja pouco provável que as lesões associadas à tendinose regridam por completo, estes tratamentos melhoram a força do tendão e interrompem o ciclo de lesão, permitindo a introdução de colagéneo saudável na área afectada e melhorando a circulação.

 

Por outro lado, este tratamento reduz a dor, aumenta a amplitude dos movimentos e permite o retorno às actividades diárias.

 

Uma vez que a tendinose provoca alterações nos tecidos que os tornam mais susceptíveis a novas lesões, é importante manter uma atenção especial sobre o tendão afectado mesmo após o tratamento estar concluído. As massagens, alongamentos e um correcto aquecimento antes de um treino, são exemplos de estratégias úteis para a prevenção de novas lesões e para a manutenção dos tecidos saudáveis.

 

 

Fontes

  • American Academy of Family Physicians
  • Mayo Clinic, 2008
  • American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2007
  • Familydoctor.org, Dez. 2010
  • American Orthopaedic Foot & Ankle Society
  • Grupo de Interesse em Fisioterapia no Desporto, 2013
  • The Regents of The University of California, 2012
  • Tiago Lazzaretti Fernandes e col., Lesão muscular - fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e apresentação clínica, Rev Bras Ortop. 2011;46(3):247-55
  • Aires Duarte Júnior e col., Urgências na Traumatologia Esportiva, Condutas em Urgências e Emergências para o Clínico: 1099-1103
  • Murray Heber, Tendinosis vs. Tendonitis
  • Evelyn Bass, Tendinopathy: Why the Difference Between Tendinitis and Tendinosis Matters, Int J Ther Massage Bodywork. 2012; 5(1): 14–17
  • Christina Shatney Tendinosis Vs Tendinitis, The BodyNewsletter, Family Physical Therapy Services, Inc., 2, 2000
  • Fernando Fonseca, Lesões tendinosas no desporto, Actualidades terapêuticas; Faculdade de Medicina, Universidade de Coimbra, Janeiro de 2011
  • Nicola Maffulli e col., Types and epidemiology of tendinopathy, Clin Sports Med 22 (2003) 675– 692
  • Jean-François Kaux e col., Current opinions on tendinopathy, Journal of Sports Science and Medicine (2011) 10, 238-253
  • Murrell G. A., Understanding tendinopathies Br J Sports Med 2002;36:392-393
  • Hans-Wilhelm Mueller-Wohlfahrt e col., Terminology and classification of muscle injuries in sport: a consensus statement, Br J Sports Med, 18 October 2012 

 

Conteúdo elaborado com o apoio de InfoCiência