"As grávidas podem correr?": o que precisa saber sobre exercício físico e gravidez

As modalidades seguras, contraindicadas e os sinais de alarme que significam que a grávida deve cessar a atividade física.
Publicado por: Mafalda Martinho Simões em 21 de Novembro 2014
Tags: Corrida , exercício físico , gravidez , pré-eclâmpsia

Muito tem sido estudado nos últimos anos sobre exercício físico e gravidez. Sendo o exercício físico parte integrante da vida da mulher moderna, a questão sobre os possíveis efeitos adversos do exercício físico na gravidez continua por esclarecer. Em teoria, o exercício físico poderá representar um desafio importante para o bem-estar materno e fetal, uma vez que o stress imposto quer pela própria gravidez, quer pelo exercício físico, poderá criar alterações na homeostasia materno-fetal e afetar adversamente o prognóstico da gravidez.

 

O que demonstram as investigações recentes

Nos últimos anos, contudo, a investigação nesta área tem demonstrado os benefícios do exercício físico no prognóstico materno e fetal, incluindo fatores psicológicos maternos positivos, risco diminuído de diabetes gestacional, de pré-eclâmpsia e de parto distócico (cesariana ou instrumental). A ideia de que a hipertermia do exercício físico pudesse ser teratogénica (conduzir a malformações) nunca foi cientificamente comprovada.

 

Diretrizes para a prática de exercício físico na gravidez

Na sequência destes estudos, a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) publicou, em 2002, guidelines para a prática de exercício físico na gravidez, reafirmadas posteriormente em 2009. Nestas guidelines é recomendada a prática de exercício físico moderado e regular na gravidez, desde que na ausência de contraindicações (ver abaixo). Em geral, a participação na maioria dos desportos parece ser segura. No entanto, desportos com risco elevado de contacto (basquetebol, futebol, hóquei) ou de queda (ginástica, hipismo, ciclismo, esqui) são desaconselhados na grávida pelo potencial risco de traumatismo abdominal. Atividades como o mergulho também estão contraindicadas na gravidez, pelo risco de doença de descompressão fetal. Em relação aos desportos praticados em altitude, os 1800m representam o limite para a prática de exercício físico na grávida.

 

Contraindicações para a prática de exercício físico na gravidez

Absolutas

  • Doença cardíaca com alteração hemodinâmica significativa
  • Doença pulmonar restritiva
  • Gravidez múltipla com risco acrescido de PPT
  • Insuficiência cervical
  • Hemorragia 2º/3º trimestre persistente
  • APPT/RPPM na gravidez atual
  • Pré-eclâmpsia/HTA gestacional

 

Relativas

  • Anemia grave
  • Arritmia cardíaca materna não avaliada
  • Bronquite crónica
  • DM 1 mal controlada
  • Obesidade mórbida
  • IMC <12
  • História de estilo de vida com sedentarismo extremo
  • RCF na gravidez atual
  • HTA mal controlada
  • Limitações ortopédicas
  • Hipertiroidismo / Epilepsia mal controlada
  • Grande fumadora

 

Legenda: PPT = Parto pré-termo; APPT = ameaça de parto pré-termo; RPPM = Rotura prematura pré-termo de membranas; HTA = hipertensão arterial; DM 1 = diabetes mellitus tipo 1; IMC = índice de massa corporal; RCF = restrição de crescimento fetal.

Fonte: ACOG Comittee Opinion, 267

 

Guidelines da Royal College of Obstetricians and Gynaecologists

De forma semelhante, a Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) publicou, em 2006, guidelines sobre a prática de exercício na gravidez, incluindo a frequência cardíaca alvo para o exercício físico aeróbico, de acordo com a idade materna (ver tabela abaixo).

 

Frequência cardíaca (FC) alvo para exercício aeróbico na gravidez

Idade materna (anos) FC alvo (Batimentos /minuto)
<20 140-155
20-29 135-150
30-39 130-145
>40 125-140

 

Condição física anterior à gravidez

Mais importante do que a frequência cardíaca alvo parece ser a condição física da mulher prévia à gravidez. Embora não esteja estabelecido um limite superior de intensidade do exercício, as praticantes regulares de exercício físico poderão adotar programas de alta intensidade como a corrida e a ginástica aeróbica, sem efeitos adversos maternos e/ou fetais.

Contudo, é importante não esquecer que a gravidez não é altura para desafios. As grávidas não deverão aumentar a intensidade do exercício físico e, inclusivamente, devem esperar uma diminuição da intensidade e atividade física à medida que a gravidez progride.

No caso da mulher previamente sedentária, esta deverá iniciar um programa de exercício aeróbico de 15 minutos contínuos três vezes por semana, aumentando gradualmente para 30 minutos quatro vezes por semana ou até diários.

 

Prática de musculação: cuidados adicionais

A prática de musculação também deve ter em conta alguns cuidados adicionais. As alterações fisiológicas da gravidez tornam as articulações mais laxas, pela ação hormonal da relaxina, havendo maior risco de lesão muscular/articular. Assim, para praticantes de musculação prévia à gravidez, a intensidade dos exercícios deve manter-se ou até diminuir. Para mulheres sedentárias, a prática de musculação deve iniciar-se com cargas baixas e com um programa de manutenção individualizado à condição física da grávida. O aconselhamento com um profissional experiente nesta área poderá ser necessário.

 

Quando terminar a prática de exercício físico: sinais de alarme

Existem alguns sinais de alarme que significam que a grávida deve cessar a prática do exercício físico e os profissionais de saúde devem transmitir este tipo de informação às grávidas desportistas (ver abaixo).

 

Sinais de alarme 

  • Sensação de falta de ar
  • Dor torácica ou palpitações
  • Pré-síncope ou tonturas
  • Contrações uterinas dolorosas ou APPT
  • Perda de líquido amniótico
  • Hemorragia vaginal
  • Fadiga extrema
  • Dor abdominal ou pélvica
  • Diminuição dos movimentos fetais
  • Cefaleias
  • Fraqueza muscular
  • Dor ou edema dos membros inferiores

 

Legenda: APPT = ameaça de parto pré-termo

Fonte: ACOG Comittee Opinion, 267

 

Corrida e gravidez

Em relação ao tema específico da corrida, embora esta não esteja contraindicada na grávida, poderá ter a médio-longo prazo algumas consequências - não para a gravidez, mas para a mulher. A gravidez, pelas alterações fisiológicas que comporta, origina um enfraquecimento do pavimento pélvico aumentando o risco futuro de disfunção do pavimento pélvico como o prolapso dos órgãos pélvicos e a incontinência urinária. Por outro lado, o parto vaginal e, sobretudo, o instrumental, representa outro fator de risco. A corrida, tal como outros desportos de impacto, pode aumentar ainda mais o relaxamento e enfraquecimento do pavimento pélvico, essencialmente a partir da segunda metade da gravidez, altura em que se verifica o maior ganho ponderal quer materno quer fetal.

É importante referir que este efeito de enfraquecimento dos músculos e articulações do pavimento pélvico pela corrida ocorre mesmo na mulher não grávida, estando demonstrado que a prevalência de incontinência urinária chega a atingir mais de 40 por cento das corredoras de alta competição em idades muito jovens.

 

Substituir o programa de treino

Considerando a existência de muitos outros desportos saudáveis e com níveis de intensidade física semelhantes, parece sensato substituir um programa de treino que inclua a corrida por um programa de treino que inclua bicicleta estacionária, elíptica ou até a natação (que evitam o impacto). Contudo, para grávidas que queiram manter a atividade da corrida, tão frequente nos dias de hoje, podem optar por programas alternados entre a corrida (uma a duas vezes por semana) e a bicicleta estacionária, por exemplo.

 

Interessa-lhe saber

No pós-parto, um programa de fortalecimento do pavimento pélvico é essencial para recuperar a forma física e evitar sequelas futuras. No caso do parto por cesariana, a fisioterapia está desaconselhada antes das oito semanas, de forma a permitir a correta cicatrização dos tecidos.