Doença oncológica e nutrição

Uma nutrição adequada é essencial para enfrentar a doença oncológica e os efeitos secundários dos tratamentos.
Publicado por: CUF em 29 de Janeiro 2014
Tags: cancro , doença oncológica , efeitos secundários , quimioterapia , radioterapia , tratamentos oncológicos

“A intervenção do dietista/nutricionista no doente oncológico deve ocorrer numa fase precoce e é fundamental para prevenir a desnutrição. Um bom estado nutricional traduz-se em efeitos positivos na função imunitária, na diminuição da taxa de complicações, na eficácia da resposta ao tratamento e no controlo dos sintomas. Assim, é fundamental que o estado nutricional seja monitorizado e otimizado o mais precocemente possível para que haja um aumento da qualidade de vida», explica Rita Talhas, dietista.

 

Efeitos secundários dos tratamentos
Como se sabe, os tratamentos oncológicos podem provocar diversos efeitos secundários, que vão desde a anemia às náuseas e vómitos à alteração do odor e do paladar, diarreia, mucosite, estomatite, entre outros. Com a ajuda desta dietista, vamos centrar-nos em alguns dos efeitos secundários provocados pelos tratamentos oncológicos e em como uma nutrição e hábitos alimentares adequados, assim como o recurso a alimentos específicos, podem ser aliados na prevenção e alívio dessas queixas.


Anemia e défices nutricionais
Como refere Rita Talhas, entre os efeitos secundários mais comuns dos tratamentos oncológicos encontram-se “a diminuição das células sanguíneas, nomeadamente glóbulos brancos, plaquetas e glóbulos vermelhos (anemia). Esta diminuição pode levar ao aumento de suscetibilidade para infeções. Pode também verificar-se a diminuição do ferro e da vitamina B12.”

 

Dieta diversificada e saudável
“A nível geral, e também para evitar défices nutricionais e anemia, deve ser privilegiada uma alimentação variada e saudável baseada nas leis nutricionais da tradicional dieta Mediterrânica, de modo a manter um peso equilibrado, tal como indicam a Liga Portuguesa Contra o Cancro e a Associação Portuguesa de Dietistas”, refere a dietista.

 

Intolerância a certos alimentos e alterações de paladar
Um certo estado de mal-estar, com intolerância a certos odores e alterações de paladar pode acontecer. De acordo com Rita Talhas, “a intolerância a determinados alimentos, até mesmo aos preferidos, é uma das manifestações de falta de apetite (anorexia), podendo levar à perda de peso. O tratamento de radioterapia e/ou quimioterapia pode provocar alterações de paladar, perda de sabor dos alimentos, aversão a certas preparações culinárias, aromas ou temperos.” Nesta situação, como aconselha a dietista, os doentes oncológicos devem:

  • Optar por alimentos líquidos e sem cheiro: frutas batidas com leite ou em sumo natural, papas confecionadas com leite frio, gelatina, leite-creme, purés de fruta, compotas, queijo fresco, saladas, ovo cozido, camarões e delícias do mar.
  • O doente deve sempre procurar alimentar-se com pratos da sua preferência, evitando temperaturas muito quentes ou muito frias.
  • A estimulação do apetite pode ser efetuada com pequenas caminhadas antes das principais refeições ou enxaguando-se a boca antes da ingestão dos alimentos.
  • As refeições devem ser servidas em ambiente agradável.

 

Náuseas e vómitos
Entre os efeitos secundários dos tratamentos oncológicos encontram-se também a náusea e os vómitos que, cada vez mais, são controlados por fármacos. No doente que esteja a submeter-se a um tratamento oncológico, “os vómitos podem ocorrer mesmo que esteja com o estômago ‘vazio’. Quando acontecem em excesso podem provocar desidratação”. Para evitar/atenuar as náuseas, vómitos e desidratação, Rita Talhas dá-nos as seguintes recomendações:

  • Para atenuar as náuseas, o doente deve fazer uma infusão de gengibre para ir ingerindo ao longo do dia.
  • Deve promover-se uma alimentação mais “leve”, que inclua alimentos de mais fácil digestão: torradas, biscoitos secos, compotas, caldos, sopas, purés, bolachas torradas ou Maria, bolacha de água e sal, saladas entre outros, que devem substituir os alimentos que causam repulsa ao doente como, por exemplo, as gorduras.
  • É recomendada a diminuição do consumo de alimentos como leite puro, bebidas gaseificadas e alcoólicas, café, chá preto, chocolate, carnes gordas, leguminosas, couves, brócolos, repolho, batata-doce e açúcar.

 

Mucosite, estomatite e odinofagia
De acordo com a dietista, com o tratamento oncológico pode igualmente “ocorrer inflamação da mucosa que reveste a boca, esófago e intestino, surgindo, assim, a mucosite, a estomatite e a odinofagia. Recomenda-se que o doente evite alimentos picantes, crocantes, duros, ou que possam esfoliar a mucosa, assim como os alimentos ácidos (abacaxi, laranja, limão, tomate, vinagre, ketchup, mostarda, pimenta, etc.), granulados e crus. Também são de evitar os alimentos salgados (pipoca, amendoim, fritos de pacote em geral) e a ingestão de alimentos /preparações em temperaturas muito quentes ou muito frias.”

 

Diarreia
Em caso de diarreia, “o doente deve evitar o consumo de leite, bebidas achocolatadas e sumos de frutas ácidas. Também deve excluir as fibras insolúveis (cereais integrais, farinha de trigo integral, centeio, etc.) pães e bolachas integrais, bolachas recheadas, os fritos, as gorduras em geral, as frutas com efeito laxante (abacate, ameixa, uva, kiwi, abacaxi), leguminosas, verduras e temperos como coentros, tomate e ervas aromáticas em excesso. Recomenda-se uma ingestão de líquidos superior a 1,5L por dia. Nestes líquidos pode-se incluir água, sumos de fruta, gelatinas e gelados”, salienta Rita Talhas.

 

Não se esqueça…
O doente oncológico não deve ter medo de experimentar novos alimentos ou alimentos que não costumava comer, pois o seu paladar pode sofrer alterações durante o tratamento.