É verdade que o coração não dói?

Este é um dos grandes mitos que erradamente é repetido. O coração dói e qualquer queixa de dor súbita pode ser um sinal de enfarte do miocárdio. Saiba como reconhecer e o que fazer.
Publicado por: Luís Ferreira dos Santos em 10 de Maio 2018
Tags: coração , dor no coração , enfarte , enfarte do miocárdio , ataque cardíaco , doenças cardiovasculares
É verdade que o coração não dói?

O enfarte agudo do miocárdio (vulgarmente conhecido como "ataque cardíaco") é uma verdadeira emergência médica. O normal funcionamento do coração é uma condição fundamental à vida, que só é possível se o músculo cardíaco estiver adequadamente alimentado.

 

O que acontece ao coração durante um enfarte de miocárdio?

A irrigação do músculo cardíaco é feita pelas artérias coronárias e se qualquer uma entupir de forma súbita com gordura e/ou coágulos, o músculo não recebe nutrientes e oxigénio nas quantidades que necessita. Ao fim de poucos minutos sem receber sangue as células começam a sofrer (processo que designamos por isquemia) e, finalmente, em muito poucas horas, as células começam a morrer (ocorrência que designamos por fibrose). Se atempadamente tratada, a isquemia pode ser reversível, mas uma vez que se instale fibrose a condição é irreversível, pois o nosso organismo não tem a capacidade de regenerar o músculo cardíaco morto.

 

Qual a incidência na população portuguesa?

Em Portugal são internadas anualmente cerca de 12 mil pessoas por enfarte agudo do miocárdio, com maior volume de internamentos nos meses de inverno e com um pico tradicional no mês de dezembro.

 

Como saber se está a ter um enfarte de miocárdio?

Um dos grandes mitos que erradamente são repetidos e que importa esclarecer é a frase: "o coração não dói". Errado. O coração dói, e qualquer queixa de dor súbita desde o umbigo até ao maxilar inferior e desde a parte anterior do tórax até às costas, incluindo os dois braços, pode corresponder à apresentação clínica do enfarte do miocárdio. Qualquer dor súbita nesta grande área anatómica pode corresponder a isquemia cardíaca, sendo mais provável se a dor for localizada na zona da mama esquerda, que os anatomistas chamam de precórdio.

 

O conceito errado que o coração não dói deriva que algumas pessoas que são internadas por enfarte do miocárdio nunca percecionam dor, podendo descrever "aperto", "peso" ou "mau estar" torácico. Existem também manifestações mais atípicas, como fraqueza geral, náuseas, vómitos, sudação, desmaio ou taquicardia. Em pessoas com compromisso da função sensorial do sistema nervoso (os diabéticos são o exemplo mais frequente) são mais frequentes estas apresentações clínicas mais subtis e atípicas.

No limite é ainda possível sofrer um enfarte do miocárdio sem qualquer sintoma (isquemia silenciosa), mas essa não é claramente a regra.

 

Sobreviver a um enfarte de miocárdio

É comum a ideia de que dificilmente se sobrevive a um enfarte de miocárdio ou que este deixa grandes sequelas.

No inicio da década de 90, em Portugal, 44% das pessoas morriam por causa cardiovascular, mas as medidas estratégicas preventivas e a melhoria dos diagnósticos e tratamentos nas áreas do enfarte do miocárdio e do acidente vascular cerebral (AVC) permitiram, em 2015, reduzir esse valor para 29,7%.

Cerca de 35 mil portugueses morrem anualmente por doenças cardiovasculares, que continuam a ser a principal causa de morte, e destes cerca de mil são por enfartes do miocárdio.

 

Perante sintomas sugestivos de enfarte do miocárdio, é essencial recorrer de imediato a serviços médicos. As sequelas serão tanto menores quanto mais rapidamente forem instituídos os tratamentos.

 

O diagnóstico baseia-se na avaliação clínica, no eletrocardiograma e análises ao sangue.

 

O tratamento passa pela desobstrução emergente da artéria coronária que esteja afetada, pela medicação com fármacos que inibem a cascata da coagulação e agregação de plaquetas, e pelo suporte de todas as funções cardíacas que estejam afetadas, quer mecânicas, quer elétricas.

 

Que hábitos devemos adotar para prevenir enfartes de miocárdio?

  • Deixar de fumar
  • Realizar exercícios aeróbicos (caminhar, nadar, andar de bicicleta) durante 30 minutos diários em cinco dias da semana
  • Reduzir os níveis de stress
  • Adotar uma dieta saudável, pobre em gorduras saturadas e rica em fruta, vegetais e cerais
  • Manter um peso adequado