O seu filho precisa de terapia da fala?

Está preocupado porque o seu filho fala menos do que outras crianças da mesma idade? Há dois cenários possíveis: ou o seu ritmo é diferente ou tem um problema ao nível da fala.
Publicado por: CUF em 03 de Junho 2019
Tags: terapia da fala , criança , desenvolvimento , leitura , linguagem
Criança e terapeuta em sessão de terapia da fala

Cada criança tem o seu ritmo: se algumas já conseguem dizer "mamã" ou "papá" com um ano de idade, outras podem levar um pouco mais de tempo. Não é necessariamente algo preocupante: é normal que a idade em que as crianças aprendem a linguagem e começam a falar varie muito. Mas e quando chegam aos dois anos e ainda não falam? É normal ou deve ser motivo para alarme? É importante que os pais aprendam a distinguir eventuais problemas na fala daquilo que pode ser o trajeto normal do desenvolvimento do seu filho.

 

Como é que decorre o desenvolvimento normal

Todas as crianças passam pelas mesmas etapas de desenvolvimento do discurso (expressão verbal da linguagem, com a articulação de sons e palavras) e da linguagem (sistema de troca de informação com significado, que pode ser verbal, não verbal e escrito), mas nem todas as crianças têm a mesma idade quando o fazem. Contudo, durante os check-ups de rotina, o médico irá avaliar se a criança já atingiu os seguintes "marcos":

 

Antes dos 12 meses

A criança deve ser capaz de usar a sua voz para se relacionar com o ambiente envolvente, balbuciando. Aos nove meses, pode começar a juntar sons, usar a entoação para responder à estimulação ou até para participar e pedir interação, dizer palavras como "mamã" ou "papá", não percebendo necessariamente o que significam. Deve também começar a prestar atenção a palavras e a reconhecer o nome de objetos mais comuns, como o biberão.

 

Entre os 12-15 meses

Consegue pronunciar mais sons, começa a imitar sons e palavras e costuma dizer mais uma ou duas palavras - além de "mamã" e "papá" -, normalmente, nomes como "bebé" e "bola". Também entende e segue ordens simples, como "dá-me o brinquedo".

 

Entre os 18-24 meses

Aos 18 meses, muitas crianças conseguem dizer cerca de 20 palavras e, aos dois anos, 50 ou mais. Aos dois anos começam também a combinar palavras para formar frases simples e são capazes de identificar objetos comuns, apontar para os olhos, orelhas ou nariz, entre outros, e seguir ordens como "pega no brinquedo e dá-mo".

 

Dos 2 aos 3 anos

O discurso desenvolve-se bastante, com um vocabulário mais alargado e a capacidade de combinar três ou mais palavras para formar frases. A sua capacidade de compreensão melhora e começa e perceber o que significa, por exemplo, "põe em cima da mesa" e "põe debaixo da mesa". Consegue identificar cores e percebe conceitos descritivos, como "pequeno" versus "grande".

 

Os sinais de que algo não está bem

Se o bebé não reage ao som nem o vocaliza, deve ser examinado por um médico. No entanto, normalmente os pais têm dificuldade em distinguir a existência de um problema daquilo que é considerado normal. Fale com o seu médico assistente se o seu filho:

  • Aos 12 meses: não faz gestos, como apontar ou acenar
  • Aos 18 meses: prefere os gestos às vocalizações para comunicar e tem dificuldade em imitar sons e em perceber ordens simples
  • Aos 2 anos: consegue apenas imitar palavras ou ações, não diz frases ou palavras espontaneamente e usa apenas alguns sons e palavras de forma repetida, não consegue falar para comunicar mais do que as suas necessidades imediatas, não segue ordens simples ou tem um tom de voz anormal (muito rouco ou nasal)
  • É mais difícil entendê-lo do que o que seria suposto. Os pais ou quem cuida da criança devem conseguir perceber cerca de metade do seu discurso aos dois anos e cerca de três quartos aos três anos. Aos quatro anos, mesmo quem não a conhece deve ser capaz de perceber o que diz

 

O que pode causar estes problemas

Pode acontecer que o atraso na fala da criança se deva a algum problema a nível da fisionomia oral, por exemplo, freio da língua que pode ser muito curto, limitando os movimentos que permitem a fala, assim como a estrutura do céu da boca.

Podem também existir problemas ao nível do cérebro, nas áreas responsáveis pela fala, que dificultam a coordenação dos lábios, língua e maxilar na produção do discurso. Estes casos estão normalmente associados a outros problemas, como dificuldade em mastigar e engolir. Problemas de audição estão também muitas vezes associados a atrasos na fala e na linguagem.

 

Como é feito o diagnóstico

Perante a desconfiança da existência de um problema, pelos pais ou médico, a criança deve ser avaliada por um terapeuta da fala. Este testará as competências da criança a nível da fala, da linguagem, comunicação e motricidade orofacial, tendo em conta aquilo que seria expectável para a sua idade: 

  • Linguagem recetiva (o que percebe)
  • Linguagem expressiva (o que diz)
  • Se tenta comunicar de outras formas (gestos, apontar, etc)
  • Desenvolvimento do som
  • Clareza do discurso
  • Capacidade motora da boca

 

Se forem detetadas alterações em uma ou mais áreas acima descritas, a criança poderá ser acompanhada por um terapeuta da fala, que a ajudará a melhorar as competências de discurso e de linguagem e mostrar aos pais como a podem ajudar em casa.

 

Em casa: como podem os pais ajudar

O envolvimento dos pais é fundamental para que a criança ultrapasse problemas no discurso ou linguagem. Existem estratégias que podem encorajar o desenvolvimento e que podem ser praticadas em casa:

  • Comunicar muito com a criança, falando, cantando e encorajando-a a imitar sons e gestos
  • Ler para a criança, começando quando é ainda bebé e adaptando os livros à idade. Recorra aos que têm imagens e encoraje-a a dizer os nomes das figuras
  • Aproveitar as situações do dia a dia para reforçar o seu discurso e linguagem: diga o nome dos alimentos no supermercado ou explique o que está a fazer enquanto cozinha
  • Fazer perguntas e reconhecer as respostas da criança, mantendo o discurso simples, mas evitando "falar à bebé"

 

Identificar e tratar dificuldades na fala e na linguagem de forma precoce é a melhor abordagem e com a terapia e tempo adequados a criança conseguirá comunicar melhor.