Patologia do pé e do tornozelo

Se é do sexo feminino e pratica desporto, fique a par das patologias mais frequentes e dos cuidados a ter com os pés e o calçado.
Publicado por: João Beckert em 09 de Maio 2014
Tags: Consulta de Lesões do Desportista , macrotrauma , microtrauma , mulher desportista , pé , tornozelo

Costumamos comparar a anatomia do pé a uma ponte suspensa idêntica à ponte 25 de abril. Tal como a ponte, o pé é constituído por blocos (26 ossos), juntas (33 articulações) e cabos de suspensão (tendões). A saúde dos pés depende do equilíbrio funcional entre estas diferentes estruturas.

Na mulher desportista, o pé adquire especial importância. O desempenho desportivo depende em muito da saúde dos pés e tornozelos e estes são frequentemente sujeitos a esforços e traumas responsáveis pelo aparecimento de lesões. Nas próximas linhas, conheça algumas das patologias mais frequentes e os cuidados que deve ter com os seus pés e calçado.

 

Calçado desportivo

"Traga roupa desportiva e calçado apropriado" costuma ser a recomendação em diversos folhetos de convite à atividade física. Por roupa desportiva entende-se aquela que não nos prende os movimentos, não causa feridas de atrito na pele, é confortável e, por vezes, até respirável. Mas, o que se entende realmente por "calçado apropriado"?

Em primeiro lugar, trata-se do calçado que se adequa à atividade que vamos fazer. Caminhada na mata ou peddy-paper citadino? Corrida de orientação ou aula de grupo em ginásio? Algumas atividades, como o windsurf, requerem um calçado específico mas, para a maioria delas, um modelo mais genérico costuma bastar e é suficiente para os primeiros contactos com as modalidades.

 

Erros frequentes

Quando vamos praticar desporto devemos ter cautela com o calçado completamente novo. De facto, estrear o calçado é uma etapa delicada. Recomenda-se fazê-lo em pequenos treinos e nunca num passeio longo, competição ou dia desportivo.

Com muita frequência, os vendedores de calçado desportivo ou mesmo amigos sugerem calçado com controlo da pronação no caso de pé plano (também conhecido como "pé chato"). A opção pelo controlo de supinação baseada na forma estática do pé não é correta. De facto, a necessidade de compensações depende do comportamento de todo o membro inferior durante a corrida.

 

Consulta da especialidade

Um treinador experimentado tem capacidade para identificar padrões menos apropriados de corrida. Alguns corredores mais experientes podem ajudar mas é o próprio corredor quem melhor identifica o fator mais importante: o CONFORTO.

Numa consulta da especialidade, o médico vai integrar os dados que o doente lhe transmite com os do exame objetivo e, eventualmente, de exames complementares. O estudo da marcha e da corrida são úteis nalguns casos mais difíceis. Não se esqueça: se marcar uma consulta médica do pé (ou de medicina desportiva) leve os seus sapatos de treino!

 

Pés inchados: quando ir ao médico

O inchaço ou edema dos pés e tornozelos é uma queixa comum. Se o aumento de volume nos pés, tornozelo ou perna aparece repentinamente, deve recorrer ao médico com brevidade.

As causas mais frequentes de edema são traumáticas. As mulheres desportistas têm maior risco de lesão, tanto por macro trauma como microtrauma. O entorse do tornozelo é um exemplo de macro trauma: trata-se de um evento único, súbito e de fácil identificação e que causa edema da articulação. Os pequenos traumas, de repetição, surgem de forma insidiosa, com identificação menos precisa e podem estar associados a edemas mais localizados (tendões, por exemplo). O excesso de corrida, a mudança súbita de regime de treino ou de terreno são condições de risco de microtrauma.

 

Insuficiência venosa

A insuficiência venosa dos membros inferiores é outra causa de inchaço. O descanso, com as pernas elevadas, faz parte das recomendações para esta situação. Nas formas ligeiras e moderadas desta patologia, os doentes melhoram quando se acrescenta o exercício físico ao plano de tratamento. A trombose venosa profunda é uma situação grave, com dor intensa e edema da perna. Pode surgir após períodos de repouso prolongado (viagem de avião, doente acamado, uso de imobilização com gesso). Pessoas obesas, os fumadores, as grávidas e as mulheres a tomar contracetivos orais fazem parte dos grupos de risco acrescido.

 

Infeção e outras causas de edema

A infeção é uma causa comum de inchaço e está geralmente acompanhada de dor e vermelhidão. É fácil identificar a origem da infeção quando está associada a uma unha encravada ou a formas severas de "pé de atleta". Os diabéticos devem vigiar cuidadosamente os sinais de alerta de infeção.

Por vezes, as causas de edema estão relacionadas com outras patologias como doenças do coração, dos rins, apneia do sono, diabetes ou outras. Em alguns casos, a síndrome pré-menstrual pode associar-se ao edema dos tornozelos e pés. Alguns medicamentos causam edema de ambas as pernas. A toma de anticoncetivos orais, medicamentos com estrogénio, corticosteroides e alguns anti-inflamatórios, medicação anti hipertensiva e para a diabetes podem causar edema.

 

Cuidar dos pés em casa

A desportista deve instituir rotinas simples para cuidar dos pés:

  • A imersão dos pés numa bacia com água tépida e sais de banho durante 5 a 15 minutos permite um bom amolecimento da pele e das unhas.
  • Uma lima larga, aplicada com suavidade, permite remover calosidades nos dedos e zonas de pele demasiado espessas. Calos dolorosos ou exuberantes podem requerer ajuda profissional.
  • A esfoliação de todo o pé pode ser feita com um produto esfoliante à venda no mercado ou utilizando-se um esfoliante feito em casa (por exemplo, uma mistura com duas colheres de sal marinho, óleo de bebé e uma gotas de limão).
  • O tratamento termina com a hidratação dos pés com um creme apropriado.

 

Problemas cutâneos

O suor pode causar erupções cutâneas e eczema. Assim, a escolha das meias é muito importante. A utilização de meias de nylon em ténis de má qualidade (de plástico ou muito apertados) não permitem ao pé secar corretamente e podem agravar o problema. Usar meias grossas e de algodão macio ajuda a manter o pé seco. É aconselhável mudar de meias todos os dias e deixar secar os ténis entre utilizações.

 

Pé de atleta, calosidades e verrugas

O pé de atleta é uma erupção cutânea, que ocorre entre os dedos, causada por um fungo. O tratamento consiste na aplicação de antifúngicos em pó e loções, associado a uma boa higiene do pé.

Outro problema cutâneo frequente são as calosidades, que resultam de um aumento da pressão sobre a pele, consequência de calçado apertado ou resultado de saliências ósseas (exostoses). As verrugas resultam de uma infeção viral. São muitas vezes confundidas com as calosidades.

 

Lesões das unhas

As unhas encravadas resultam, muitas vezes, de um corte incorreto (unhas muito curtas, principalmente nas laterais). O corte das unhas do pé em linha reta, e não demasiado curto, permitindo o comprimento adequado para projetar unha além da pele nas margens, evita que as unhas encravem.

A infeção das unhas (onicomicose) é outra patologia frequente. A unha pode ficar acastanhada, amarelada ou ter pequenas manchas brancas. Torna-se frágil e lascada. Em alguns casos pode ficar tão grossa que o uso de sapatos causa dor. As unhas infetadas também podem separar-se do leito ungueal, condição designada por onicólise. Esta patologia é difícil de tratar. A utilização prolongada (durante 3 meses ou mais) de antifúngicos orais é muitas vezes necessária.

 

Entorses

Os entorses de tornozelo e pé são muito frequentes. A maioria tem uma evolução espontânea para a cura, contudo, em alguns casos, é necessária uma atenção especial de forma a evitar sequelas. A gravidade do entorse está relacionada com o número de elementos ligamentares atingidos e é habitualmente classificado em 3 graus de gravidade (I, II, III).

 

Como tratar um entorse

Um tratamento correto evita o aparecimento de dor crônica e instabilidade. Para um entorse de Grau I seguem-se as normas R.I.C.E.:

  1. Rest - Repouso, não efetuar carga.
  2. Ice - Aplicação de frio.
  3. Compression - Imobilização com ligaduras.
  4. Elevation - Elevar o tornozelo acima do nível do coração por 48 horas.

Geralmente, o inchaço geralmente baixa em alguns dias. Para um entorse de grau II, além das normas anteriores, é frequente a necessidade de imobilização com uma tala gessada ou uma ortótese apropriada. Um entorse de grau III pode ser responsável por uma instabilidade permanente do tornozelo. A cirurgia pode ser necessária para reparar os ligamentos, especialmente em atletas de alta competição.

 

Fraturas

As fraturas são uma consequência frequente de traumatismos. Contudo, certas fraturas no pé podem resultar da repetição de esforço, sem estar associadas a um episódio traumático. Este tipo de fratura é conhecido por fratura de stresse. O aparecimento súbito de dor no desportista, na ausência de trauma, deve apontar para a suspeita de fratura de stresse.