Escoliose: quando o Colete de Boston é o melhor tratamento (Vídeo)

Este tipo de ortótese é, muitas vezes, o tratamento mais indicado para uma escoliose estrutural. Mas não é simples. Conheça o caso de Leonor Malato, que usa um colete há quatro anos.
Publicado por: CUF em
Tags: escoliose , colete de boston , costas , adolescência , coluna
Colete de Boston no tratamento da escoliose

Leonor Malato tinha 12 anos quando, numa consulta de rotina, o pediatra suspeitou de uma escoliose. Encaminhada para ortopedia, as suspeitas confirmaram-se: Leonor tinha, de facto, uma escoliose estrutural e já bastante pronunciada.

 

 

"As escolioses estruturais são aquelas que estão relacionadas com a deformidade da própria coluna. Portanto, a coluna tem uma rotação com inclinação, é uma deformidade que é sempre tridimensional. Ao contrário das escolioses posturais, que podem ser causadas por uma diferença de comprimento dos membros inferiores ou por uma dor nas costas, que obriga a pessoa fica torta. Qualquer um destes dois grandes grupos têm indicações para tratamento completamente diferentes", explica Jorge Mineiro, ortopedista, que acrescenta ainda que "90% das escolioses são as escolioses idiopáticas (de origem desconhecida) do adolescente e essas surgem com mais frequência durante a fase de crescimento rápido". E em raparigas.

 

Tendo em conta estas características específicas, é justamente nesta fase de crescimento que é necessário intervir, por forma a impedir a progressão da curvatura - e não reverter a já existente, já que tal não é possível. Assim, os tratamentos para uma escoliose estrutural podem passar pela vigilância - em casos de diagnóstico muito precoce -, pelo uso de uma ortótese (aparelho de correção) ou pela cirurgia.

No caso de Leonor, o uso de um colete de Boston - uma ortótese rígida, em polipropileno, desenvolvida inicialmente no Hospital Infantil de Boston, em 1972, por John Hall e William Miller - revelou-se a abordagem mais indicada. Mas nada fácil: "Usar um colete nesta fase da vida é uma tempestade e é um peso em cima. Vários adolescentes quase preferem a cirurgia ao uso do colete", revela o ortopedista. Existem ainda outras possibilidades de coletes, alguns deles apenas para uso noturno, quando a curvatura não é na coluna dorsal - o que não era o caso da Leonor.

 

Leonor e a mãe, Sandra, confirmam as dificuldades iniciais, sobretudo nos primeiros dias, em que progressivamente se vai aumentando o número de horas de uso: "No dia em que fomos buscar o colete, que é feito à medida, pouco depois de entrarmos no carro, a Leonor pediu para pararmos: tinha de tirar o colete pois não estava a aguentar", recorda Sandra Malato. Esta tem de ser uma adaptação progressiva, em que é necessário hidratar muito a pele para que não existam lesões. As próprias roupas têm de ser adaptadas, já que algumas não se coadunam com o uso do colete. É o caso da farda dos escuteiros, que à data Leonor já frequentava - e que tanto mãe como filha consideram ter sido bastante importante na superação deste diagnóstico: "Os escuteiros sempre fizeram da Leonor mais autónoma".

 

As dificuldades dos primeiros dias foram sendo superadas até conseguir atingir o uso do colete durante as 16 horas diárias prescritas. Ou mais, já que, muitas vezes, Leonor usava o colete mais tempo, de forma a fazer uma espécie de "banco de horas" que lhe permitia, no verão, usar o colete menos tempo. Isto porque o verão é a altura do ano mais desafiante para utilizar o colete, já que este - que não pode ser usado diretamente sobre a pele, obrigando ao uso de uma camisola de algodão sem costuras por baixo - se revela muito quente e não permite o uso de roupas mais frescas. Também nos fins de semana de encontros escutistas, Leonor apenas usava o colete à noite. Na escola, o colete era usado sempre, com exceção das atividades desportivas, mas "às escondidas": "poucas pessoas sabiam que eu utilizava o colete. Ia à casa de banho, não me despia em frente às colegas, no balneário, era mesmo na casa de banho". Com o tempo, também isto se normalizou e hoje, com 16 anos e depois de quatro anos de tratamento, Leonor começa a fazer a fazer a "desabituação" do colete - já só usa para dormir - e o seu caso é considerado um sucesso. E é por isso que quer mostrar a outras jovens como ela que usar um colete de Boston não é diferente de usar óculos ou o aparelho dos dentes.